domingo, 13 de novembro de 2016

O ovo da serpente?



Carlos Alberto Ferreira


“É a economia, estúpido”, interpelou o então governador do Arkansas, Bill Clinton, em debate televisivo, ao apoplético presidente George Bush (pai) que não entendia porquê estava perdendo a eleição presidencial de 1992.
Múltiplas análises tentam desvendar a surpreendente vitória do plutocrata novaiorquino Trump, republicano, nas últimas eleições da Roma dos tempos atuais.
Devemos considerar que muitos fatores definem os resultados eleitorais. Nas eleições municipais, como a que acabamos de vivenciar, também cheia de surpresas aqui e alhures, pesam sempre os interesses mais diretos do munícipe: o asfalto, limpeza pública, saúde ou a sofrível escola pública dos pequenos. Se estes equipamentos públicos funcionam razoavelmente, o prefeito até se reelege ou elege quem estiver apoiando. 
Fatores nacionais que dizimaram a presença dos alcaides petistas, são pontos fora da curva do processo eleitoral municipal. Assim como supostos derrames de recursos, praga de nossa realidade política, que determinaram resultados como os observados na ilha de Upaon Açu. 
Nas eleições estaduais, articulações e alianças bem costuradas definem a derrubada de grupos exauridos no poder. Afinal, o sentimento estrutural de um estado não é tão fácil de se perceber ao eleitor comum. O ente estadual, na federação, não gera política econômica de impacto nem social que altere profundamente a vida dos cidadãos. Apenas podem melhorar o funcionamento da máquina pública ou realizar política de incentivos com impostos estaduais. Em ambos os casos, pesam carismas dos candidatos, bons pacotes marketológicos, claro, e as alianças políticas tão distantes do povo, como bem definiu o alemão Bismarck – “Os cidadãos não poderiam dormir tranqüilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis (no caso, os acordos políticos). 
Estes fatores são importantes, mas não decisivos. Estruturas materiais ou grandes aportes financeiros, como vimos na última eleição estadual, onde um novo grupo político substituiu o “ancien régime”, além da exaustão política de um povo que ansiava por renovação, mas também resolução dos problemas.
Nas eleições gerais (nacionais), como a que acaba de acontecer no grande irmão do norte, a economia é decisiva, a despeito das múltiplas variáveis que compõem as corridas eleitorais nacionais.
Trump com discurso raso e demagógico, como é próprio da direita, e também das esquerdas,   explorou os fantasmas, desilusões e frustações do cotidiano da classe média baixa americana, com baixa formação escolar e sem acesso aos avanços proporcionados pela tecnologia,  vítimas dos empregos perdidos para o  furacão chinês, cuba centrípeta da produção industrial mundial. 

Afinal, a tecnologia do iPhone gestada em Cupertino, no Vale do Silício da Califórnia, ganha materialidade nas fábricas chinesas por 1/10 do preço da produção fabril americano.

Trump disse aos americanos, especialmente aos da classe média baixa do meio-norte, brancos em sua maioria - o viés racial é muito forte naquele país -: “vou trazer seus empregos que os chineses roubaram, vou devolver os latinos aos trópicos (até a pontapés, prometeu como um Jonh Wayne de gravata vermelha e camisa impecavelmente branca), e "Make America Great Again". Balela. Falso com uma nota de 3 dólares. O mesmo slogan de Hitler: Machen Sie deutschland großes wieder. Vamos fazer a américa (ou a Alemanha) grande novamente (tradução livre).

E é exatamente aí que mora o perigo. Os bufões como Trump, Hitler e assemelhados parecem caricatos, mas incapazes de realizar seus delírios econômicos e viabilizar suas promessas. Um tresloucado destes, ou cleptocratas de países auto-intitulados socialistas,  como Enver Halil Hoxha, tirano por décadas da Albania ou Kim Jong-um, herdeiro da monarquia coreana, (ressalte-se que não vejo nestes, exemplos de socialistas),   podem lançar mão dos poderes que teve, no caso Hitler, ou terá, no caso Trump: poder militar ou economia capaz de mudar todos os padrões da economia mundial, como o Tio Sam já fez no passado, quando quebrou o mundo, trocando o padrão ouro pelo dólar, ou na política suicida ultra liberal que Reagan produziu para enriquecer ainda mais os americanos mais ricos.

Em última instância, além do cansaço da elite política do seu país, os americanos decidiram escolher um Salvador da Pátria xenófobo, sexista, plutocrata, racista e tão vazio como os reality shows que os analfabetos políticos adoram e fazem os políticos outsiders, como os Doria (SP) e Kalil (BH) que rejeitam a política, despolitizando os milhões que mais precisam de políticas públicas.

Não se espantem se o ovo da serpente eclodir espécimes como Bolsonaro. Marine Le Pen, filha do Trump francês Jean Marie Le Pen, já lidera o primeiro turno das eleições presidenciais na terra de Asterix e Obelix. Diversos países do Velho mundo já vivem sob governos conservadores, caminhando para ultra-conservadores.  
A auto-suficiência da esquerda está jogando a América Latina no colo dos Trumps cucarachas. Dilma deu uma grande contribuição para isto, com seu isolacionismo político  e sua economia desastrada. Maduro faz o mesmo. 
É bom recordar Maiakovski  e seu poema (Existem controvérsias sobre o autor do poema)
“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.” 
Entendo que é hora de pensar nosso futuro, antes que não o tenhamos mais. E recomendo ver, ou rever, o filme do genial Ingmar Bergman: O Ovo da Serpente.
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Carlos Alberto Ferreira é diretor de comunicação da Assembleia Legislativa do Maranhão e especialista em marketing eleitoral.


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